sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Por trás das cortinas

O responsável pela iluminação Douglas Chinaglia 
ajustando as luzes do espetáculo
Para a maioria do público o teatro funciona somente quando abre suas portas. Quando o espetáculo acontece e tudo ocorre de forma magnífica, sempre glorificamos os atores, diretores e músicos. Fecham-se as cortinas, a peça acaba e o público vai embora satisfeito.
Neste momento eles entram em ação mostrando seu talento na arte de guardar e proteger, limpar e preservar as dependências, administrar e agendar as peças, iluminar e sonorizar os espetáculos e cuidar da energia de todo o teatro. São tarefas realizadas não só no calor da apresentação da peças, mas sim cotidianamente, semana a semana, mês a mês e dia a dia.
Na rua eles passam despercebidos e anônimos, porém seus estrelatos estão atrás das cortinas, com cada um cooperando para que teatro funcione adequadamente e possa proporcionar a alegria, a emoção e o riso.

O guardião dos portões

Há quatro anos no teatro, o porteiro Luís Antônio da Silva exerce a tarefa mais árdua: guardar e proteger o teatro. Trabalhando por quase 12 horas por dia, Luís é quem escolhe quem entra e quem sai do teatro. Guardião das inúmeras chaves que o estadual possui, o porteiro também executa outras funções como o atendimento ao público, atendimento ao telefone e é responsável por informar as pessoas que vão até a portaria durante o dia. O porteiro trabalha toda semana e disse que em dias em que há peças e espetáculos também executa outras funções: “Quando há espetáculos coopero na portaria coletando os ingressos do público”, comenta Luís Antônio.

Passando a limpo

A auxiliar de limpeza Irene Almeida dos Santos é uma das mais antigas funcionárias do teatro. Irene está a 14 anos exercendo a função de faxineira, papel que faz diariamente. A faxineira, que tem ajuda de mais três funcionárias e uma assistente do Projeto Cidade Verde, executa várias funções relativas a limpeza. “Aqui sou mil e uma utilidades, faço desde a limpeza, até preparar o café”, comenta a faxineira.
A auxiliar de limpeza comenta que os trabalhos de limpeza do teatro são diários e intensos. “Faço todo trabalho de limpeza diário, principalmente do carpete. As paredes também são limpas com álcool. Nas segundas-feiras o trabalho é dobrado, devido aos eventos que ocorrem nos finais de semana”, completa Irene.

Johnny W. Lussari, que trabalha como técnico 
de som profissional há 16 anos
Palco, som e luz: o espetáculo vai começar

Se qualquer desses elementos falharem, o espetáculo simplesmente não acontece. Os responsáveis por essa missão essencial são Douglas Chinaglia, técnico de luz e maquinário, e Johnny W. Lussari, técnico de som. Douglas trabalha como técnico de luz há 10 anos e está no teatro há dois. O técnico é encarregado pela manutenção dos equipamentos de luz e maquinários do teatro, além de auxiliar na montagem do palco e dar suporte aos realizadores das peças. Devido a anos de prática na área, Douglas adquiriu vasto conhecimento e até já preparou o roteiro de iluminação de alguns espetáculos. “Ajudei a conceber o roteiro de luz do ballet da Belle Amie coordenado por Vinicius Gambini”, relatou o técnico.
Já o técnico de som Johnny W. Lussari exerce a profissão há 16 anos e fez curso de áudio em São João da Boa Vista. O técnico de som é responsável em auxiliar a passagem de áudio do espetáculo, assim como monitorar volumes e executar suporte na montagem do som no palco. Quando as peças ou os eventos não dispõem de técnicos, Johnny acaba executando a função por inteiro. “Geralmente quando acontecem eventos de colação de grau em formaturas, assumo a parte técnica de som equilibrando volumes e colaborando na monitoração das luzes”, completa o técnico.

Mantenedor da energia

A função de manter, monitorar e controlar os equipamentos de luz e ar-condicionado do teatro não é tarefa simples. Sereno e bem seguro do que faz, o eletricista João de Castro, trabalha no teatro há 15 anos e é encarregado em monitorar o funcionamento do sistema de luz e ar-condicionado do teatro. João executa as tarefas mais simples, como trocar uma luz, até as mais complexas, como cuidar do elevador e do quadro geral de força.
O eletricista trabalha das 7 às 17 horas e quando há eventos e espetáculos, muda seu horário, que fica das 13 às 22 horas. O eletricista comenta que quando pode, assisti às peças, e já presenciou momentos marcantes do teatro. “Quando sobra tempo assisto trechos de algumas peças, e já presenciei espetáculos como “Trair e Coçar e Só Começar” e “Gaiola das Loucas”, completa João.

Arquitetas da produção administrativa

Theresinha Daltro Pastorello, que recebeu 
menção honrosa no Mapa Cultural Paulista.
A coordenação das ações administrativas e da produção artística do teatro é tarefa semelhante a conceber a construção de uma casa. Três pessoas chaves são encarregadas dessa arquitetura de ações, e no cotidiano do dia a dia são responsáveis por manter a vida artística do teatro.
Maria Heloísa Pinton, formada em Letras, está no teatro há quatro anos e faz papéis diversos que constam em auxiliar na administração, coordenar a bilheteria, trabalhar junto a divulgação de eventos e peças e ainda redigir relatórios. Já Maria Cristina Betelli Pinton, que é chefe da área administrativa geral, coordena todas as ações burocráticas que envolvem controle de verbas repassadas, revisão de contratos, prestação de contas e suporte na assessoria da programação do teatro. Cristina, como é chamada, é professora de piano e cursou o Conservatório Carlos Gomes, em Campinas. A professora, que está no teatro desde maio de 2003, atende também as produções dos espetáculos agendando hotéis e restaurantes para os artistas que passam pela cidade.
Incumbida de dirigir todos esses “atores” que trabalham atrás das cortinas diariamente está a diretora e professora Theresinha Daltro Pastorello. Theresinha está na direção geral do teatro há 15 anos e foi responsável pela total reestruturação e reforma realizada em 1995. As principais decisões administrativas são tomadas por ela, que também diz exercer outras funções, como até a coleta de ingressos na portaria. A diretora do teatro comenta que todo o esforço em reerguer e manter o teatro por todos esses anos foi fruto da ajuda da sociedade ararense. ”Não conseguiria fazer nada sozinha se não fosse a ajuda dos funcionários do teatro e também dos representantes da sociedade ararense que sempre apoiaram a arte. Agradeço as empresas que colaboraram com o teatro nesses 20 anos. Graças a vontade e determinação desse grupo de pessoas é que conseguimos manter o teatro em pé”, afirma.
Theresinha ganhou menção honrosa no Mapa Cultural Paulista em 2005, pela sua atuação junto à administração do teatro.

*Matéria publicada no Caderno Especial sobre os 20 anos do Teatro Estadual Maestro Francisco Paulo Russo, no Opinião Jornal de Araras, em março de 2011


Maestro da batuta de ouro

Músico contribuiu para o desenvolvimento do ensino de música em Araras e para formação da Corporação Musical Maestro Francisco Paulo Russo, atuante até os dias de hoje

Baluarte e propagador da arte em Araras, o Maestro Franscisco Paulo Russo nasceu em Nápoles, na Itália em 21 de agosto de 1882. Aprendeu música em Nápoles e em Pizo, na Calábria, com o nobre maestro Jacob Percy.
Em 1895, aos treze anos, veio pra o Brasil e ainda muito jovem se estabeleceu em Araras. Além de trazer seu conhecimento musical também contribuiu com sua força de trabalho, e começou a trabalhar como barbeiro, abrindo o Salão “Brasil”, localizado na Praça Oito de Abril. Desbravador da música e de personalidade artística multifacetada ministrava aulas de piano, teatro, e dramaturgia. Teve trabalho intenso com teatro em Araras criando o grupo de teatro amador “Grupo Dramático Operário” e a “Sociedade Recreativa de Danças”.
Em dois de setembro de 1926, criou o curso de piano em Araras, e foi responsável também pela fundação da corporação musical “Lira Infantil”. Entrou na regência da “Corporação Musical Carlos Gomes”, após a morte do antigo maestro Franscisco Puzone. O maestro nessa época foi pioneiro na região fazendo com que sua orquestra tocasse nos cinemas musicados (nesse período os filmes eram mudos e a trilha sonora era executada pela orquestra que tocava ao vivo).
Fundou também a Corporação Musical “Pedro Mascagni” e reestruturou a “Banda Carlos Gomes”, implantando o uso de uniformes e aumentando seu contingente para 30 componentes.
Em 1922, o maestro trouxe para Araras a conquista do 1° lugar no Concurso de Bandas realizado na comemoração do Centenário da Independência, realizado em São Paulo. Dentre outras atividades, foi ainda presidente da “Sociedade 21 de outubro”, proprietário do jornal Tribuna do Povo.
O teatro sempre foi sua paixão e chegou a compor várias peças musicais como: “Alma Ararense”, “Hino do Ginásio do Estado de Araras”, “Tempo de Mazurca”, “Hino do Centro Cultura Ararense” e “Pensamento Religioso”, dedicado ao Papa Pio XII.
Franscisco Paulo Russo foi casado com Sra.Carmen Brigante Russo e com ela teve quatro filhos: Paulo Américo Russo, Oswaldo Russo, Arnaldo Russo, Clotilde Russo e Aldo Russo.

Homenagens ao maestro

Em agradecimento aos vários serviços prestados para Araras, o maestro foi presenteado com batuta de ébano e ouro junto com os dizeres “a preciosa lembrança de uma batuta de fino ébano guarnecida de ouro, da mocidade ararense, representa o carinho e reconhecimento do povo de Araras ao esforçado Maestro que, com sua disciplinada Corporação, colheu os maiores louros na Capital".
Fora isso, a Câmara Municipal outorgou ao maestro o nome de uma das ruas do centro da cidade.
Em 1991, com a construção do teatro estadual, o governador Orestes Quércia comunicou à família que gostaria de homenagear o maestro dando ao teatro a nomeação “Teatro Estadual Franscisco Paulo Russo”.
Marcos Aurélio Russo, neto do maestro, não chegou a conhecê-lo, porém contou que se lembra de quando foi comunicado da homenagem. “Recebemos o comunicado do próprio governador Orestes Quércia, que queria homenagear esse personagem tão importante para a história cultural de nosso município”
Marcos comentou também sobre a importância e a relevância do avô no papel de fomentador artístico de Araras. “Os imigrantes italianos que vieram na época de meu avô trouxeram para o município a força de trabalho. Creio que o maestro, além disso, foi o baluarte cultural em nosso município, trazendo consigo em sua bagagem a música, que é a arte mais singela de todas”, comentou Russo.

Breve biografia de um discípulo de Franscisco Paulo Russo

A história musical de Araras é bem rica e traz dentro de sua essência personagens que cravaram suas notas musicais nos corações e nas mentes de gerações de apreciadores da música. As bandas de coreto são tradição única e exclusiva dos municípios do interior e é marca cultural registrada. Até a pouco tempo a Corporação Franscisco Paulo Russo recebeu o título de Ponto Cultural pelo Ministério da Cultura, tamanha sua importância artística.
O maestro Franscisco Paulo Russo quando reorganizou a “Banda Carlos Gomes”, deu o ponta pé inicial ao crescimento e a exposição nacional da música realizada em Araras, trazendo de São Paulo em 1922, o 1º lugar no Concurso de Bandas na comemoração do 1° Centenário da Independência.
Inúmeros músicos passaram pela corporação e puderam conviver com o trabalho rigorosamente artístico de Franscisco Paulo Russo.
Meu avô, Antonio de Castro, foi um dos componentes que fizeram parte da banda. Procurando em seus arquivos fotos da época em que tinha o conjunto Tito e sua Banda, encontrei um diário escrito por ele, contando da experiência de entrar para a banda do maestro. Tito tocava trombone de vara e também bombardino e relata exatamente como foi seu teste para entrar na banda Carlos Gomes. No diário Tito conta como esse momento foi inesquecível: “Foi um tarde de agosto de 1938, quando contava com 15 anos de idade foi guiado pela informação de um jornalzinho que dizia que um maestro estaria iniciando a abertura de uma escola de música”. O começo para meu avô foi difícil, e como ele mesmo cita no diário, o maestro era muito rigoroso com as lições.
A principio o curso do maestro era destinado a 45 meninos, porém nem todos tinham talento suficiente e o maestro realizou outra peneira que reduzia para vinte, o número de alunos. Após o maestro escolher o instrumento que cada um tocaria, meu avô acabou ficando com o trombone: “Devido alguns elogios que o maestro já tinha me feito anteriormente, eu já sabia que iria tocar trombone, o que era a minha verdadeira loucura.”, relatou Tito em seu diário.
Pelo que percebi lendo esses relatos de meu avô, o maestro parecia ser pessoa bem rígida, porém amável e espirituosa. Em alguns trechos fica evidente a postura enérgica do maestro com os alunos. “Fomos então fazer a primeira lição com o instrumento. Um de cada vez. E ali como de costume Jorge, que era muito inteligente, saiu-se bem nas primeira notas da escala, mas nem por isso o maestro deixou de dar-lhe algumas reguadas, porque Jorge esquecia-se e abaixava demais o clarinete. Com força e gestos enérgicos, Paulo Russo erguia o clarinete enfiando a boquilha quase na boca do aluno”, conta no diário Tito.
Todavia segundo meu avô, o maestro era considerado com pai para eles, pois era bondoso com todos os alunos: “Nós considerávamos o maestro com nosso segundo pai, porque ele era bondoso, e sempre guiava os seus alunos não só pra carreira musical, mas também para o caminho de sucesso na vida. Sacrificava-se para que um aluno quisesse trabalhar, arranjando serviços e boas casas aos alunos com dificuldade”, disse meu avô.
Logo depois de realizarem o primeiro concerto com a banda executando o dobrado “Lyra Infantil”, meu avô conta que o maestro queria levar os alunos para tocar em Campinas para tocarem na frente da estatua do músico Carlos Gomes. E lá se apresentaram tocando o dobrado ”Posso Dobre”, que atraiu a atenção dos transeuntes da praça.
Quando a banda estava indo bem e já ao gosto do maestro, o prefeito Emilio Ferreira dispensou a corporação. Esse momento foi bem marcante para Tito e ele relata no diário que o maestro direcionou sua carreira após o termino de suas aulas. “Seu Castro, ouça bem o que vou lhe dizer. Nunca large da música meu filho, você fará mal a si mesmo. Prossiga estudando com essa vontade e dedicação. Não se esqueça daquele dia em que solaste a “Ida” em Americana. Digo com sinceridade gostei demasiado do seu desempenho, pois estava ótimo para um aluno de apenas um ano de estudos”, disse o maestro ao meu avô.
Depois dessa conversa o maestro orientou meu avô e o indicou para tocar na Corporação Musical Municipal Ararense, que era estava sendo formada pelo Maestro Hugo Montagnolli.
A partir disso meu avô seguiu sua carreira de músico profissional montando seu próprio conjunto chamado “Tito e sua Banda”, que muitos bailes realizou em Araras e região na década de 40 e 50. Junto a isso continuou fazendo parte da Corporação Musical Municipal Ararense. O diário em que relatou esses fatos foi escrito em 10 de setembro de 1945,datilografado por ele mesmo.
Tito de Castro, como era chamado, trabalhou também como tesoureiro na Prefeitura Municipal de Araras e faleceu no dia 18 de dezembro de 1963.
Graças a meu avô herdei o dom pela música, que foi fomentado pelas aulas de Franscisco Paulo Russo. Infelizmente não cheguei a conhecer Tito, mas suas palavras ficaram guardadas e perpetuadas pra sempre na história.

*Matéria publicada no Caderno Especial sobre os 20 anos do Teatro Estadual Maestro Francisco Paulo Russo, no Opinião Jornal de Araras, em março de 2011


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Jornalismo na internet: Agilidade versus credibilidade

O jornalismo online ainda sofre muito com qualidade de texto e análise”- Suzana Singer, ombudsman da Folha de S. Paulo

A plataforma online transformou a maneira de informar e definiu os novos rumos da difusão de notícias. Na internet, o furo jornalístico ganhou mais velocidade e os leitores podem acompanhar os fatos em tempo real. Além disso, outras características mais evidentes desse tipo de jornalismo são a maior interatividade do leitor, pois esse pode interagir com outras pessoas ou até com o próprio jornal.
Há também uma customização ou personalização do conteúdo com o leitor escolhendo o que quer ler na hora que quiser. A hipertextualidade aumenta a variedade de possibilidades de se ver a notícias com o texto acompanhado de vídeos, sons e imagens linkadas a outros sites.
Porém, por ser ágil e instantâneo, o jornalismo online ainda sofre com qualidade de texto. Em entrevista concedida ao Mídiavisão a ombudsman da Folha de S. Paulo Suzana Singer reforçou essa opinião e disse que o jornalismo online ainda tem muito que caminhar para melhorar.
“O jornalismo online tem muitas vantagens. É muito mais rápido e direto. Porém, o online ainda sofre muito com qualidade de texto e análise. O jornalismo em geral vive num momento muito complicado, pois a imprensa precisa investir não só na TV, no rádio e em outro meio, mas também na web. E hoje você fazer investimentos em mais de um meio, em um momento que economicamente não é dos melhores, é difícil”, apontou Suzana.
Para a ombudsman Suzana Singer, o jornalismo online ainda
sofre com qualidade de texto e análise – Crédito: Horácio Busolin Júnior
A necessidade de melhorias na plataforma online da Folha de S. Paulo já era criticada pelos leitores desde o começo do serviço Folha online em 1999. Mudanças e adaptações no site foram críticas do ombudsman Renata Lo Prete em coluna publicada em 21 de novembro de 1999.
Na ocasião, ela dizia que pela possibilidade de atualização contínua, a tendência era que o jornalismo digital superasse o impresso. No entanto, Lo Prete afirmava que desde 1999, a versão eletrônica da Folha ainda era uma versão empobrecida do impresso.
É claro que se você quiser saber mais a finco sobre uma notícia você terá que recorrer ao impresso, com detalhamento melhor da notícia trazendo análises e críticas mais elaboradas. No entanto, uma das vantagens é que o jornalismo digital é mais democrático, pois é mais participativo e interativo, abrindo espaço para vários pontos de vistas provindos de infinitas fontes, que o leitor ou internauta pode acessar a qualquer instante.
A internet proporcionou também a proliferação de vozes e opiniões diversas e a produção intensa do jornalismo colaborativo com fotos e vídeos publicados em blogs de jornalistas independentes. Esse novo fenômeno alterou a maneira do fazer jornalístico. Suzana Singer relatou ao Mídia Visão que os jornalistas da Folha e da imprensa em geral precisam aproveitar esse novo conteúdo como fonte para as matérias.
“Então é preciso criar formas inteligentes de aproveitar essas oportunidades. A gente viu isso na Primavera Árabe, a gente viu isso no momento que o Bin Laden foi preso, e a primeira pessoa que deu a noticia foi no Twitter. Isso esta na mão de todo mundo, só que ainda é preciso descobrir como aproveitar isso de fato e a imprensa tradicional tem que aproveitar isso melhor. Todo mundo tem uma câmera dentro do seu celular, todo mundo sabe filmar, todo mundo sabe essas coisas, você tem que aprender filtrar e trazer isso como vantagem para o meio tradicional”, finalizou Singer.

Conversando com os leitores
O panorama geral da imprensa online nos dias atuais parece não ter mudado. O Midia Visão conversou com leitores de notícias pela internet que apontaram as deficiências e qualidades do jornalismo online. Daniel Brina, estudante de Física da USP (Universidade de São Paulo), cita que o problema do jornalismo na internet é a credibilidade da informação.
“Às vezes tenho receio de confiar totalmente em alguma notícia. Por isso, sempre busco outras fontes pra ter certeza da verdade da informação. Não costumo muito me informar por blogs de notícia. Se tem algo que acho estranho, sempre confirmo a veracidade no site do Terra”, disse Brina.
A opinião do estudante reitera que os meios de comunicação ainda são detentores de credibilidade e servem de oráculo da verdade. Em entrevista para o Mídiavisão o ex-ombudsman Mário Vitor Santos revela que a credibilidade ainda é a única arma que meios tradicionais possuem para combater a desinformação e a multiplicação dos blogs de notícia. “A única coisa que pode sobrar pros veículos, a médio prazo, é a credibilidade. Porque eles serão ultrapassados pela tecnologia, mas essa tecnologia sempre é, e vai poder ser questionada”, pondera o ex-ombudsman.
No entanto, mesmo os portais ditos os “oráculos da verdade” também estão sujeitos a erros. O músico André Verona, que também usa a internet para se informar, diz que os sites de notícia ainda pecam muito pela má qualidade dos textos. “Na maioria das vezes os textos são bons. Porém, os erros de português e de digitação ainda persistem. Exemplo é o G1 – O portal de Notícias da Globo que passa dos limites!”, reclama Verona.
Além disso, o músico disse também que o grande problema do jornalismo online é o excesso de sensacionalismo. “Acho sensacionalista e duvidoso. Tanto, que tenho até dificuldades para confiar no que leio. Tenho sempre que buscar diversas fontes”, completa.
Já o empresário Eduardo Bueno destaca pontos positivos para o jornalismo online. “Eu gosto do jornalismo produzido na internet. O acesso a informação é bem mais rápido e podemos buscar a mesma informação em vários sites diferentes para poder entender melhor”, diz Bueno.
No entanto, ele aponta como pontos negativos, o excesso de propagandas dos portais. “Tem sites em que você precisa ficar procurando as notícias no meio de uma infinidade de propagandas. Isso acaba irritando um pouco”, contesta. Além disso, ele reitera que os sites de notícia são inconstantes e primam por vezes dar mais ênfase ao entretenimento do que ao jornalismo.

Blogs versus meios tradicionais
O leitores entrevistados pelo Mídia Visão também disseram que preferem os meios tradicionais para se informar do que os blogs noticiosos. Daniel Brina prefere se informar pelos portais convencionais como os sites G1 e UOL. Porém, quando o assunto é humor, ele prefere os blogs do gênero.
O empresário Eduardo Bueno, também corrobora desta opinião. “Sempre fico nos meios tradicionais, uso blogs só quando alguma coisa me interessa mais. Ultimamente tenho buscado mais informações sobre meu trabalho em blogs de negócios e economia”, disse Bueno.
O jornalista e designer gráfico João Mauro de Assis, mais conhecido como Johnny Mau, também procura a veracidade dos fatos em meios tradicionais como o Último Segundo, do portal IG. O jornalista aponta que a maioria dos blogs não tem qualidade e que quando procura esse meio para se informar sobre música ou arte, verifica antes o nível de conhecimento de quem escreve os posts.
“Muitos blogueiros acabam criando os seus apenas para ter uma porta de entrada nos espaços VIPs de eventos, como o SPFW, Salão Duas Rodas, etc. Acabam falando de um assunto que não domina. Quando resolvo seguir um blog, procuro saber qual o nível de conhecimento de quem o escreve. Já li muito material com erros crassos e sem nenhum tipo de embasamento ou pesquisa”, disse o jornalista.
            No entanto, há quem prefira se informar utilizando a mídia alternativa produzida pelos blogs independentes. O músico Augusto Meneghin é cético em relação aos meios de comunicação tradicionais, que para ele manipulam a opinião pública.
“Penso que a mídia tradicional reproduz um discurso alienante, feito para manter as pessoas dentro dos padrões do capitalismo, ou seja: ela defende os opressores, a polícia, incriminando trabalhadores e as minorias. Somente isso já faz com que qualquer notícia vinda desses meios me soe como pura manipulação”, afirma.
Mário Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha de S. Paulo, afirma que os meios de comunicação tradicional 
ainda exercem influência sobre a mídia independente – Créditos: Fernando Carvalho 

Manipulação ou não, para o ex-ombudsman Mário Vitor Santos os meios de comunicação tradicionais ainda são responsáveis pelo grosso da apuração de notícias e pautam boa parte dos assuntos discutidos em blogs e nas redes sociais.  

“A ideia de que as redes sociais constituem um veículo para informação absolutamente pura e desligada dos meios tradicionais parece que não se confirma. As redes sociais dependem muito daquilo que é apurado pelos veículos profissionais, que investem grandes quantias no sentido da apuração da informação, pelos canais tradicionais de circulação da informação”, pondera o ex-ombudsman.

*reportagem original publicada no blog MídiaVisão em novembro de 2013. Disponível no link: http://midiavisao.blogspot.com.br/2013/11/jornalismo-na-internet-agilidade-versus.html

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Cicloturismo: Aventura em duas rodas por um dia

Modalidade ganha cada vez mais adeptos que querem fugir do stress do dia a dia do trabalho

Por Horácio Busolin Júnior

Mesmo em meio à cana é possível encontrar
 áreas preservadas na região rural de Araras
Créditos: Horácio Busolin Júnior

“Bom dia, Grupo Café com Pedal, vamos acordar, levantar e pedalar. E para quem chegou agora nem vá dormir. Tome um banho, pegue a bike e vamos passear” – Mensagem enviada por João Luis Mendes, coordenador do Grupo de cicloturistas Café com Pedal de Araras.

O sol ainda nem nasceu. São 5h20 da manhã do domingo dia 21 de abril, Dia de Tiradentes e o grupo de cicloturistas de Araras Café com Pedal já se prepara pra mais uma jornada de emoção, aventura e adrenalina. O grupo conta com 100 ciclistas registrados e foi criado por João Luis Mendes, bancário e ciclista inveterado, que se apaixonou pela bicicleta há oito anos.
Criado em 2011, o grupo vem ganhado novos adeptos, sejam eles ciclistas amadores ou profissionais. O nome Café com Pedal surgiu por conta de que antes de saírem para viajar, todos se reúnem para um café reforçado na casa de João Luis.
Aos poucos, perto das 7h da manhã, os ciclistas turistas vão chegando e se concentram defronte a casa dele para mais uma cicloviagem.
“Nos reunimos aos finais de semana e feriados, para tomar um café da manhã e depois pedalar. Também as terças, quartas e quintas-feiras, os mais experientes realizam o Pedal Noturno, ocasião em que dão dicas de acondicionamento físico aos novos adeptos para poderem enfrentar viagens mais longas”, explica João.
Os integrantes do grupo não se consideram esportistas e sim pedalam por simples prazer, buscando a paz de espírito e tranqüilidade. “Pedalar para mim é uma forma de tirar o stress do dia a dia. Nosso pedal não foca a competição e sim fazer passeios para conhecer as áreas rurais, onde tenho temos contato com a natureza e paisagens, aprendendo a respeitá-la em todas as viagens que fazemos”, relata.
O cicloturismo é uma modalidade de turismo diferenciada e envolve a mistura de esporte, lazer e saúde.  A prática ganhou força nos anos 70 na Califórnia quando Gary Fisher e Tom Ritchey, líderes de um grupo de hippies, decidiram utilizar suas bicicletas velhas para apreciar a bela vista da Baía de São Francisco na Califórnia subindo as montanhas de Marin Country e depois descê-las em alta velocidade.
Atualmente a prática populariza-se e ganha novos adeptos. A Alemanha, país onde a bicicleta é um dos meios de transporte mais utilizado, possui cerca de 21 milhões de cicloturistas que movimentam R$5 milhões de euros na economia alemã. No Brasil a modalidade ainda engatina e começa a se organizar. O grupo “Clube do Cicloturismo do Brasil”, é o mais representativo e expressivo e conta atualmente com 17 mil associados.
O cicloturismo não pode ser considerado só como um esporte, até porque não envolve competição. Na verdade, é uma modalidade de turismo que engloba outras cinco: o ecoturismo, o turismo rural, o turismo de aventura, o turismo cultural e o gastronômico.
Os trajetos realizados pelo grupo são os mais diversos. Duas vezes por mês eles realizam viagens longas para locais como Andradas, Águas de Lindóia, Águas da Prata e Serra da Canastra. Nos demais finais de semana, o grupo também faz passeios de estradas rurais, visitando fazendas históricas, cachoeiras e riachos da região rural de Araras.
“As áreas rurais de Araras proporcionam um passeio onde o ciclista pode ter contato a história da cidade e o ecoturismo. Por entre estradas de terra sinuosas cheias de obstáculos e muita cana, o ciclista ainda pode ter contato com áreas preservadas e belezas naturais aonde com carro não se chega”, recomenda.
Aventura e companheirismo na travessia do Córrego Água Branca - 
Créditos: Horácio Busolin Júnior  

Terra, adrenalina e companheirismo
O passeio realizado no domingo dia 21 de abril reuniu cerca de 40 integrantes do grupo. Ao longo do caminho, eles também encontraram mais cinco cicloturistas que seguiram junto no caminho traçado por João Luis. Os ciclistas saíram de sua casa por volta das 8h e percorreram cerca de 30 km de caminhos de terra, por vezes de chão batido ou mesmo de areia bem fina.
“É preciso se atentar aos declives com caminhos de terra e pedra. Desviar dos pedregulhos vai evitar que se fure um pneu, fazendo com que o ciclista perca o controle da bicicleta. Já nos caminhos com areia, é recomendado passar pedalando bastante utilizando as marchas mais leves”, explica Marco Antônio Marçola, empresário e integrante do grupo.
            Apesar das subidas longas e íngremes, o caminho traz paisagens históricas que revelam um pouco da história da região. O primeiro ponto histórico visitado foi a Igreja Nossa Senhora da Piedade, a primeira capela fundada no bairro Elihu Root, que se formou no início do século XX, no entorno da estação de mesmo nome.
             Em caminhos que revelam ao mesmo tempo a história e também o abandono da memória histórica, o grupo chega, enfim, na antiga estação de trem Elhiu Root, inaugurada inicialmente com nome de Guabiroba.
Em 1906, o local recebeu o nome do Secretário de Estado norte-americano, o advogado Elihu Root (1845-1937), que, depois de presidir a Conferência Pan-Americana no Rio de Janeiro, veio à estação para lá descer e visitar a fazenda de café Santa Cruz.
            A estação foi desativada em 1977 quando se deu o fim do transporte de passageiros no trecho. Desde então segue abandonada. O bairro ao lado segue existindo, pequeno, mas com algumas casas e comércio. Os trilhos foram retirados no final de outubro de 1998. Mesmo assim, o ponto é visitado por turistas que passam pelo local que representa um pedaço da história do município. 

Casarão abandonado onde funcionava a antiga Estação Ferroviária Elhiu Root em Araras - Créditos: Horácio Busolin Júnior

            Após conhecer as histórias das ferrovias de perto, os ciclistas enfrentam os primeiros obstáculos do percurso. Saindo das estradas de terra demarcadas, o grupo adentra em um trecho com mata, onde passam por uma trilha com bambu. “Nesse trecho é impossível passar com a bike. Por isso os monitores ficam do outro lado pegando primeiro as bicicletas por baixo dos bambus e auxiliando os ciclistas a passar pelo obstáculo”, explica João Luis.
            Logo à frente, os ciclistas encontram um novo desafio. Desta vez, fazer a travessia do Córrego Água Branca que passa dentro já da Fazenda Araras. O pequeno córrego recebe águas do Córrego Membeca, do Ribeirão Caçununga, do Córrego Santa Cruz até desembocar no Rio Mogi Guaçú.
De bike em bike, João Luis, com a ajuda de sua esposa Vanderlene Longo Mendes, auxiliam os cicloturistas a atravessar o riacho. “Nas cicloviagens todos colaboram uns com os outros. Quando um ciclista sente dificuldades em subidas, há sempre um monitor disposto a ajudar a empurrar o colega”, conta Vanderlene.
         Nesse momento é que a prática do cicloturismo mais se aproxima com o ecoturismo. Nota-se ao longo do percurso a preocupação dos ciclistas em preservar os locais por onde passam. “Nas viagens costumo levar sempre uma sacola para recolher o lixo encontrado durante o caminho. Nunca jogamos lixo por onde passamos e respeitamos a natureza”, relata o cicloturista Tiago Santin.
         Depois de colocar o pé na água e tomar um banho no riacho, uma das bicicletas tem sua corrente arrebentada. Ao invés de seguir, todo o grupo espera, até que o também técnico João Luis arrume a corrente. “Sempre levamos correntes extras, câmeras de ar e pneus sobressalentes, além de ferramentas. Imprevistos como esse sempre acontecem. O importante é que o ciclista uma vez por mês leve a bike para revisão, para evitar transtornos durante a viagem”, alerta.

Jequitibá centenário, que fica dentro da Fazenda Santa Cruz,
é um dos pontos de ecoturismo visitados
Crédito: Horácio Busolin Júnior
Em momento de confraternização direta com a natureza e ecoturismo, o grupo chega ao tão esperado jequitibá centenário, onde tiram fotos e contemplam a majestosa árvore de quase 10 metros de altura. A árvore é um jequitibá rosa que fica dentro da reserva florestal da Fazenda Santa Cruz, incrustada próximo ao canavial.
 Segundo o biólogo Alberto Dalla Costa, o Cariniana legalis (nome científico) é considerada a espécie mais antiga do mundo. “Esse jequitibá da Fazenda Santa Cruz deve ter entre 70 e 100 anos. Essas árvores podem chegar a 300 anos. Em Santa Rita do Passa Quatro, no Parque Estadual de Vassununga, há um jequitibá de 40 metros, que segundo estudos de especialistas, data dos 3000 anos. O nome jequitibá vem do tupi guarani que quer dizer “Gigante da Floresta”, explica o biólogo.
            Perto das 12h30, chegando até a Fazenda Araras, os ciclistas passam pela porteira param, respiram e apreciam a paisagem das plantações do descampado. O grupo passa pela fazenda e a partir dali se dispersa. Alguns seguem para a estrada rural que liga Araras até o bairro Cascata. Outros seguem até a Fazenda Matão, tirar mais fotos e apreciar as belezas do local.


Represa próxima à Fazenda Araras - Créditos: Horácio Busolin Júnior


Ultrapassando limites com qualidade de vida

“Comecei a andar de bicicleta no asfalto, muito por indicação do médico. Acabava de sair de uma cirurgia no joelho e precisava me recuperar. A prática me ajudou muito e ,além disso, pude conhecer lugares inesquecíveis estando perto da natureza como o Caminho da Fé, percurso entre Tambaú e Aparecida do Norte”, confessa José Gilberto Salomé.

            O vendedor José Gilberto Salomé é um dos cicloturistas que usou a prática para benefício do corpo e da mente. Junto como o grupo Café com Pedal, desde o começo, o cicloturista além de viajar aos fins de semana, também treina com os iniciantes nos dias de semana. Ele começou a pedalar aos poucos e já chegou a realizar viagens mais longas. Uma delas: o Caminho da Fé – trajeto de peregrinação brasileiro inspirado no Caminho de Santiago de Compostela.
O médico endocronologista Henrique Cesar Lopes, membro da equipe, vê a atividade como forma de relaxar e confraternizar com os amigos. Antes praticante de triátlon e corridas de ciclismo de rua, o médico disse que a atividade pode tirar as pessoas da depressão, trazendo-as novamente ao círculo social.
“O ciclismo entrou na minha vida como alternativa de qualidade de vida. Mostro isso aos meus pacientes, que o cicloturismo proporciona melhoras na atividade física muscular e cardíaca, tendo por conseqüência diminuição do peso. No aspecto mental, há liberação do hormônio endorfina, que causa bem estar e tranqüilidade”, explica o médico.
Quando o grupo começou, os ciclistas só realizavam caminhos na região de Araras. Com o tempo João Luis Mendes relata que o melhor condicionamento físico adquirido com treinamento fez com que eles almejassem trajetos mais longos de 60 a 400 km como é o caso do Caminho da Fé. “Nesta ocasião, pra menor desgaste, fazemos o passeio noturno na zona rural, é claro que utilizando faróis nas bikes”, explica.
            Mesmo assim, quando as cidades visitadas são distantes, o grupo vai de ônibus até um ponto localizado perto da rota a ser percorrida. “No dia 14 de abril, fomos até Águas de Lindóia. Paramos com o ônibus em um restaurante, tomamos um café da manhã e seguimos de bike até Monte Sião voltando ao mesmo local, percorrendo de 35 km”, recorda João Luis.
Outro roteiro realizado pelos integrantes é a viagem de São Paulo a Santos, realizada por meio da Rota Cicloturística Márcia Prado. Márcia Prado foi uma ciclista que morreu em um acidente na Avenida Paulista envolvendo um ônibus. A rota foi batizada com seu nome porque esse caminho foi o último realizado por ela, antes de falecer, em 2009. Na ocasião, procurava um meio de descer para a baixada santista de uma forma que não precisasse correr risco de vida e que não fosse ilegal.
O caminho passa pela Ilha do Bororé através de duas balsas e segue pela Estrada de Manutenção da Rodovia dos Imigrantes. “Para andar no trecho é preciso pedir autorização. São 18 km só de descida no asfalto. É preciso tomar muito cuidado, pois o trecho é íngreme e estreito. Se você não tomar cuidado pode se machucar”, alerta o cicloturista João Valdir Botezelli.

Após percorrer 30 km ciclistas chegam até a Fazenda Araras - Créditos: Horácio Busolin Júnior

Pedal seguro
Em viagens longas, monitores acompanham os ciclistas mantendo-os agrupados para que não se percam. “Nunca deixamos ninguém sozinho, e sugerimos que os ciclistas pedalem em grupo em trio ou pelo menos em dupla. Os monitores se dividem e ficam sempre no começo, no meio e no final do grupo”, ressalta João Luis.
Além disso, um carro com carreta para carregar aproximadamente 15 bicicletas acompanha os ciclistas durante todo o percurso. Integrantes do grupo também fizeram curso de primeiros socorros para agir da forma correta em eventuais emergências.
“É preciso aprender técnicas para descer ladeiras acidentadas, e para descer correndo é preciso passar por treinamento. Numa das viagens uma menina soltou o freio e de repente brecou. Caiu e quebrou a cravícula”, alertou Valderlene Longo Mendes.
No regimento interno do grupo “Café com Pedal” são solicitados os equipamentos necessários para participar das viagens, além da mensalidade que é paga caso o ciclista queira ser sócio do grupo. O dinheiro arrecadado serve para investir na própria estrutura do grupo como compra de equipamentos e despesas gerais.  
Para participar das viagens, basta o que ciclista possua uma bicicleta que corresponda às necessidades da mountain bike. Além disso, é obrigatório o uso de itens como uniforme especial para ciclistas, óculos de proteção, capacete, farol em caso de trajetos noturnos, luva e mochila de hidratação. 

Quanto custa pedalar?
        Pedalar com conforto e segurança para subir ladeiras e viajar a longas distâncias exige que o cicloturista invista em uma bicicleta que atenda as necessidades da mountain bike. O mínimo de marchas exigido para a prática é 21. Já o máximo pode chegar a 27 marchas.
“O ciclista iniciante pode começar a pedalar com bikes que custam em média de R$1.500,00 a R$2.000,00. Para àqueles que exigem melhor desempenho na velocidade, são recomendadas bikes feitas com material bem leve como fibra de carbono. Nesse caso, o ciclista pode gastar entre R$10.000,00 até R$40.000,00”, aponta João Luis Mendes.
            Há aqueles ciclistas que preferem montar bikes personalizadas e neste caso costumam comprar as peças em separado. A tecnologia na produção das mountain bikes, atualmente, está aperfeiçoada e tem quadros feitos de cromo, fibra de carbono, alumínio, titânio, que são bem resistentes.
            Além do desempenho do equipamento, é essencial que o ciclista possa pedalar com conforto de forma harmoniosa entre o corpo e a bike. Para isso, pesquisadores desenvolveram uma técnica chamada de Bike Fit, que utiliza-se da ciência da Biomecânica para ajustar a bicicleta ao seu corpo.
“Com o Bike Fit você faz uma avaliação física para saber o tamanho dos seus membros como braços e pernas em relação a bicicleta. Após isso, o especialista vai indicar qual o melhor equipamento a ser utilizado para que você não sinta dores, cansaço ou lesões. Algum dos ajustes corretos na altura do banco, tamanho do guidão fazem muito diferença quando se pedalam de 30 a 60 km”, finaliza João Luis.
Já as cicloviagens, segundo pesquisa do Clube do Cicloturismo no Brasil, chegam a custar por dia em média de R$ 30 a R$ 50 por pessoa. Viagens oferecidas pelo grupo Café com Pedal como para Águas de Lindóia, custaram R$50 para não sócios e R$35 para sócios. Já no percurso de Águas da Prata para Andradas, os ciclistas não sócios pagaram R$ 60 e os sócios R$45.
Cicloviagens para locais mais distantes como o passeio ciclístico da Rota Márcia Prado saíram por R$60 para sócios do grupo e R$75 para não sócios.

Antes de viajar é necessário que o ciclista verifique a mecânica da bicicleta - Créditos: Horácio Busolin Júnior
De olho na mecânica antes de viajar
  • Calibrar os pneus
  • Levar a bicicleta para a manutenção em um técnico de quatro e quatro meses;
  • Ajustar a caixa de direção
  • Verificar câmbio e regular as pastilhas de freio e cabos
  • Fazer revisão na suspensão a cada 15 dias
  • Levar sempre uma câmara de ar e bomba nas viagens
  • Se possível levar um pneu reserva e chaves adequadas para sua bicicleta
  • Lubrificar os cubos das rodas, as coroas, catracas, correntes e os pedais
  • Verificar se o guidão está fixado junto ao quadro e não está com folga na caixa de direção

Kit sobrevivência
·         Barras de cereal (não é aconselhável comer muito durante os passeios)
·   Garrafa de água ou mochilas de hidratação (o ideal é não tomar água em excesso. É recomendada apenas a hidratação equilibrada)
·         Quite de primeiros socorros

Equipamentos necessários
  •  Bicicleta de mountain bike própria para trilhas
  • Capacete
  •  Luvas
  • Camiseta e calção de ciclistas feitos com tecido sintético (camisetas de ciclistas possuem bolso atrás, o que facilita o transporte de objetos com fácil acesso)
  • Óculos
  • Mochila de hidratação (mochilas com um recipiente de água no interior e geralmente utilizadas em corridas de aventura e mountain bike)


Circuito percorrido pelos cicloturistas inclui
 o passeio em fazendas históricas - Créditos: Horácio Busolin Júnior 
Principais rotas de cicloturismo na região

Araras
Rota Araras – Antiga Estação Elhiu Root – Fazenda Araras/Matão – 50 km
Pedal Noturno 
Rota Araras – Analândia – 140  km
Rota Araras – Cascata – 70 km
Usina São João – Limeira – Araras - 53,1 km


Rio Claro
·         Rio Claro – Analândia – 54 km
Americana
·         Americana – Santa Bárbara do Oeste – Pedal Integração – 50km
Águas da Prata
·         Rota Águas da Prata – Andradas – 35km
Águas de Lindóia
·         Rota Águas de Lindóia – Monte Sião – 35 km
São Paulo
São Paulo – Santos – Rota Márcia Prado – 18 km de descida no asfalto
Tambaú
·         Tambaú – Aparecida - Rota Caminho da Fé – 400 km
Grupos e clubes de cicloturistas na região
·         Café com Pedal – Araras
·         Equipe Pé de vela – Araras
·         Americana Bike Clube - Americana
·         Limeira Bike Clube
·         Loucos por Terra – Rio Claro e Leme
·         Campinas Bike Clube – Campinas

·         Equipe Ximano – Conchal

Além do que se vê

Fotógrafo e radialista cegos rompem as barreiras do improvável e provam que a inclusão de deficientes no mercado de trabalho da comunicação é possível

Fernando Carvalho
Horácio Busolin Júnior

Citando José Saramago, “É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver”. Essa cegueira branca na qual Saramago usa como alegoria no livro “Ensaio sobre a cegueira”, pode ser aplicada no dia a dia quando as pessoas passam a não reconhecer a capacidade de pessoas com deficiência de ingressar no mercado de trabalho.
No Brasil, segundo dados do Censo Demográfico de 2010 divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 45.606.048 milhões de pessoas declararam ter pelo menos uma das deficiências, o que corresponde a 23,9% da população brasileira.
         Outro dado que chama a atenção e preocupa é de que desse total, 53,8% (23,7 milhões) das pessoas declaram estar desocupadas ou não são economicamente ativas. Em contrapartida, números do IBGE também apontam crescimento no número de pessoas com deficiência ocupadas, que chega a 23,6%, ou seja, 20,4 milhões do total de 86,4 milhões de brasileiros ocupados.
          Nessa selva de pedras de disputa por um lugar ao sol, a luta desses profissionais em extrapolar limites também se intensifica no jornalismo, na fotografia e no rádio. Quebrando tabus e tornando o improvável uma realidade concreta, quem imaginaria que um fotógrafo possa ser cego ou que um radialista também com deficiência visual possa dar resultados de jogos sem poder ler uma linha?
         As duas histórias parecem insólitas e tão inacreditáveis quanto uma chuva de sapos. Mas não. Elas são verdadeiras e serão cristalizadas em palavras pela Revista Painel nesta reportagem, que irá trazer a luz a vida profissional do fotógrafo Teco Barbero, de Sorocaba e do radialista Marcelo Eduardo Marchi, da cidade de Leme-SP.
Com menos de 10 % da visão, o fotógrafo Teco Barbero utiliza o tato para fotografar

Fotografar sem a visão?

            “Nem tudo é só imagem em uma foto. O som e a sensibilidade podem fazer parte do que se vai retratar. Talvez se o fotógrafo tocar em uma árvore antes de fazer a foto, ele tenha uma percepção mais sensível do que está em sua volta. A foto com sensibilidade agrega bem mais valores técnicos e estéticos” – Teco Barbero

            Tirar fotos sem utilizar a visão. Seria isso possível? Para o jornalista e fotógrafo sorocabano Antonio Walter Barbero, 31 anos, a atividade se tornou realidade. Com deficiência visual rara chamada persistência de vítreo primária, o jornalista possui visão de 5% a 10% e vê tudo o que as outras pessoas veem, porém com bem menos potência.
            Andando com desenvoltura pela sua casa, entre a sala e cozinha, não se nota a deficiência visual. Simpático, divertido e comunicativo, Teco Barbero, como é popularmente chamado, desde pequeno sempre driblou as dificuldades estudando e trabalhando como qualquer pessoa normal.
            Na época em que entrou na escola, a palavra inclusão de deficientes ainda era recente. Teve a ajuda dos professores e principalmente de uma tia que o acompanhava durante as aulas. Não possui uma boa leitura braile e como enxergava um pouco, foi incentivado a ler e escrever normalmente. Sua escrita e leitura não são tão ágeis, mas com persistência consegue ler o jornal por pelo menos 2 horas.
O jornalismo surgiu quase que por acaso. Primeiro queria fazer a faculdade de idiomas, por ter facilidade e gostar da profissão de intérprete. Porém em Sorocaba na época, não tinha esse curso e por indicação de professores e amigos, decidiu cursar jornalismo na Uniso (Universidade de Sorocaba).
Fazer a faculdade foi um desafio e no início chegou a ouvir palavras desanimadoras. “Cheguei a sentir certa relutância de alguns alunos que me questionavam: - Como você irá fazer quando tiver as matérias de fotojornalismo e telejornalismo? Aí respondi: ‘Quando chegar lá eu vejo como farei, não vou desanimar’, disse o fotógrafo.
Muito por coincidência, o encontro com a fotografia aconteceu no segundo semestre do curso, quando por meio de iniciativa do professor Werington Kermes, Teco foi convidado para participar de uma oficina de fotografia para deficientes visuais. O professor decidiu realizar uma oficina com 12 alunos cegos, após assistir ao filme “Janela da Alma”, de 2001, que mostrava as experiências do esloveno e fotógrafo cego, Edgen Bavcar.
“A oficina durou seis meses e proporcionou que deficientes visuais se sentissem incluídas na sociedade, podendo até tirar fotos da família e de eventos. Para mim o curso teve um caráter mais sério, tanto que usei os conhecimentos que adquiri para realizar meus trabalhos na disciplina de fotojornalismo”, contou Teco.
Após ter-se formado, já em 2009, recebeu o convite para realizar fotos para campanha publicitária da Associação Desportiva para Deficientes (ADD). O feito mudou sua vida profissional, e desde então passou a ensinar sua técnica.
“Meu objetivo é ministrar essas oficinas nas faculdades, principalmente de jornalismo, e capacitá-las para poder receber alunos com deficiência”, conclui.
Após o reconhecimento do trabalho que realizou na campanha publicitária, recebeu convite pra trabalhar como editor do jornal interno da Facens (Faculdade de Engenharia de Sorocaba). Por ser avesso ao uso de computador, não usa qualquer tipo de programa de acessibilidade e acabou adotando uma rotina um tanto incomum, mas que com ajuda dos colegas funciona.
“Peço que as pessoas me entreguem as matérias impressas e as leiam pra que possa editá-las. Devido a boa audição e memória que possuo, acredito que o processo vem dado resultado”, conta Teco.

Medindo um palmo o fotógrafo mede a distância entre a máquina fotográfica e a pessoa a ser retratada


Sentindo as imagens
A sensibilidade tátil também é um dos pilares que sustentam a rotina de trabalho do jornalista. O enquadramento das fotos para um fotógrafo que não enxerga, segundo as técnicas de Teco, é orientado pelo tato. Com a mão, medindo um palmo, o fotógrafo controla a posição e a distância que o objeto ou pessoa a serem retratados estão da máquina fotográfica.
Se a foto que a pessoa quiser tirar for de curta distância, basta apenas posicionar a máquina na altura dos olhos, sentir onde está o botão e clicar. Caso a foto seja de uma distância maior, será necessário que o fotógrafo, sem mudar sua posição, dê de dois a três passos pra trás e bata a foto.
            Teco esclarece uma questão comumente lembrada pelos alunos das oficinas. Se a foto é tirada por um cego que não pode vê-la, qual então o sentido de fazer a oficina? Teco responde: - Não tenho a ambição de torná-los fotógrafos profissionais. A foto serve para que eles sintam o ambiente onde estão, seja na praia ou paisagem e possam compartilhar com a família.
            O processo imaginativo também é peça chave na fotografia para cegos. O esloveno Edgen Bavcar diz fazer suas fotos com o olhar da imaginação. Perdeu a visão aos 12 anos, e passou a tirar fotos com 17 anos, depois que emprestou uma câmera fotográfica da irmã. A fotografia para ele surgiu como forma de liberar imagens que existiam em sua cabeça e no interior de sua alma.
            “Para o deficiente visual quem enxerga não são olhos, mas sim o cérebro, que projeta a imagem por meio do conjunto de sensações como tato, olfato e audição captados.”, explica Teco.
Teco também utiliza as mesmas técnicas de Bavcar, incluindo a foto orientada por áudio descrição. Em fotos mais complexas como paisagens ou mesmo objetos de tamanho maior como um carro ou uma casa, o fotógrafo precisa da ajuda de um acompanhante que descreve o ambiente ou uma paisagem.

Radialista deficiente visual Marcelo Marchi recebendo orientações de sua mulher que lhe passa as informações oralmente

Memória de elefante
Quem ouve a narração do plantonista esportivo da rádio Educadora nem imagina que ali está o deficiente visual Marcelo Eduardo Marchi, 34 anos. Com carreira de 12 anos no rádio, o radialista possui apenas 4% da visão, ou seja, Marcelo enxerga apenas vultos que oscilam de zero a quatro por cento.
            O radialista, que não aprendeu a ler em braile, conta com a memória privilegiada para decorar os textos. Sua mulher Débora Alexandre Marchi o auxilia e fica encarregada de coletar as informações e passá-las oralmente ao marido. Paralelo a isso, Marcelo tem seu próprio radinho de pilha, onde também ouve o resultado dos jogos.
            “A memória tem que ser sempre treinada e estimulada. Desta forma, ela nunca te deixará na mão. Não nego que às vezes é um pouco cansativo. Mas acostumei-me a trabalhar assim, e hoje se eu falar qualquer informação três vezes eu não esqueço mais” concluiu.
Antes mesmo de trabalhar no rádio Marcelo Marchi desde criança adorava ficar o dia todo gravando, ouvindo e corrigindo sua voz para o programa de esporte que fazia sozinho em sua casa. Marcelo montava o programa em fitas cassetes no rádio, que ganhara de sua mãe.
Seu grande sonho começou em 1999 quando ingressou como locutor na rádio Cultura de Leme. Sua função era como retaguarda esportiva, que era pegar resultados para outro plantonista. Quando este mesmo plantonista mudou de emissora, Marcelo foi convidado a assumir o lugar do locutor. No começo ficou um pouco com medo, mas sua grande chance de realizar seu sonho de trabalhar com rádio falaram mais alto.
            Desde que perdeu o pai, em 1982 com apenas 04 anos de idade, quis seguir seu caminho com as próprias pernas. Abandonou a escola para poder trabalhar e começou cedo como ajudante de caminhão. O fato de ter abandonado a escola não foi por motivo de preconceito, mas sim por não conseguir se adaptar as aulas dos professores.
A deficiência visual nunca foi empecilho para Marcelo, que se considera um autodidata. “O mundo não tem que se adaptar a gente. Pelo contrário, nós é que temos que se adaptar a ele, criando alternativas para poder fazer aquilo que sentimos vontade. Se você ficar parado, esperando alguma coisa acontecer, você não vai alcançar nada na sua vida”, desabafa Marchi.
            Realizando o sonho de criança, desde que construía sua própria rádio em casa com fitas cassetes, Marcelo conseguiu alcançar seu sonho e há 06 anos trabalha na Rádio Educadora 1020 AM de Limeira e também na Rádio Brasil 101,1 AM de Leme.

O radinho de pilha, amigo inseparável do locutor

Enxergando com os ouvidos

A percepção de mundo dos cegos difere completamente daqueles que enxergam, não só pelo fato de não poderem ver, mas sim por ter outros sentidos como audição, tato e olfato e até a memória mais apuradas. Qual será então a explicação para o desenvolvimento dessas capacidades? Podem ser adquiridas ou já estão transcrita no DNA?
            No caso de Teco Barbero e Marcelo Eduardo Marchi, que já possuem déficit visual intra-útero, a maior eficiência desses sentidos é explicada pela neuroplasticidade, que é a capacidade que o cérebro tem de remapeamento das conexões das nossas células nervosas, o processo que nos ajuda no aprendizado.
            Neste caso, os neurônios responsáveis pela visão foram perdidos e substituídos por outros com função redirecionada. Até a década de 70, imaginava-se que as células nervosas não possuíam a capacidade de reproduzir-se. Porém com a descoberta da neuroplasticidade, os neurônios mesmo que lentamente, se regeneram.
Para o médico neurocirugião Humberto Barbosa, é que como se o cérebro se reprogramasse para poder suprir o déficit da área que sofreu a lesão. “Essa alteração funcional causa hipertrofia de sistemas, ou seja, quando a pessoa perde a visão, o cérebro precisa criar sistemas de defesa e passa a produzir mais proteínas para outros sentidos que não a visão. Neste caso, a cinestesia, capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, será definida pelo tato, olfato ou audição”, explica o especialista.
 O mesmo raciocínio pode explicar a “memória de elefante” do radialista, que segundo o médico, foi potencializada. “Desde pequeno ele não aprendeu braile, até porque já possuía a memória auditiva importante. A partir disso a atividade só foi potencializada e desenvolvida no decorrer dos anos, até pra suprir o déficit de suas outras capacidades”, ressalta.

Luta pelos direitos dos deficientes
Lutando pela exigência de direitos desses profissionais e o preconceito que sofrem no cotidiano, a webjornalista Kátia Fonseca, que trabalha Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) em Campinas e membro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, realizou em 2010 um cadastro de jornalistas profissionais portadores de deficiência para oferecer serviços a empresas jornalísticas, assessorias de imprensa ou trabalhadoresfreelancers.
O serviço, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), tem por objetivo intensificar o cumprimento da Lei de Cotas, criada em 1991, que prevê a contratação obrigatória de profissionais com deficiência por empresas que tenham acima de 100 funcionários.
O cadastro ainda está tímido e recebeu poucas adesões. “Com a lei a empresas tem por obrigatoriedade a contratação. Isso facilita o ingresso desses profissionais no mercado. Porém pouquíssimos jornalistas com deficiência nos procuraram. Talvez esteja faltando mais divulgação”, afirma.
Para Kátia, que é portadora de nanismo acondroplásico em consequência de má formação óssea congênita, diz que quando começou a estudar e trabalhar encontrou muitos desafios e obstáculos. Ela recorda que na época em que começou no jornalismo, em 1990, as empresas não davam o apoio que dão hoje, até porque ainda não eram obrigadas a empregar esses profissionais.
Com a criação da Lei de Cotas, há 21 anos, o panorama está sendo alterado. Porém, segundo ela ainda é preciso mais esforço para seu cumprimento. 
“As grandes empresas estão cumprindo a Lei de Cotas, mas não totalmente. Isso ainda é um "nó" que precisa ser desatado. É um jogo de força entre empresários, que não querem gastar dinheiro”, afirma a jornalista.
      Não dando a luta por vencida, a jornalista persistiu no sonho de escrever, e após sair da FaculdadeCatólica São Leopoldo, em Santos (SP), onde se formou, trabalhou como freelancer no jornal semanal O Vale, na cidade de Registro (SP). Foi assessora de imprensa no Sindicato dos Urbanitários de Santos e, por fim, mudou para Campinas trabalhar no jornal Correio Popular.
No início de sua carreira, chegou a trabalhar como repórter de rua, No entanto a falta de acessibilidade nas cidades, nos prédios públicos, a impossibilitava de chegar aos locais para as matérias. “Se o repórter cadeirante chega a algum desses lugares para fazer uma cobertura e depara com uma escadaria, seu trabalho será em vão”, alerta Kátia.
Esse entendimento da sociedade na aplicação de políticas públicas de acessibilidade podem ganhar potência e destaque, se o preconceito for derrotado. Assim define a jornalista, que vê como maior antídoto para matar essa doença a informação.
“ONGs geridas pelas próprias pessoas com deficiência são fundamentais para informar sobre a realidade do cotidiano das pessoas com deficiência. Cabe a elas mostrar à sociedade como vivem, do que são capazes e o quanto são iguais a todo mundo, apesar das diferenças”, exalta a jornalista.

Dando voz a quem não tem vez 
A sociedade também já se mobiliza, criando novos canais de mídia para a difusão de conteúdo para o público deficiente. Um dos exemplos é o projeto a Vez da Voz, Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) criada em 2004 com objetivo de produzir telejornais, programas de rádio e conteúdos de mídia com narração, Língua de Sinais, legenda e audiodescrição.
A iniciativa cumpre a Portaria nº 310 de 27 de junho de 2006, que aprovou a Norma Complementar nº 01/2006 e dispõe sobre acessibilidade para pessoas com deficiência na programação veiculada na televisão.
Além disso, o projeto serve de via alternativa para dar oportunidade de emprego aos profissionais com deficiência que desejam trabalhar na comunicação. O conteúdo dos vídeos e rádio é produzido por repórteres e apresentadores com algum tipo de deficiência, seja ela física, visual, cognitiva ou auditiva.
O projeto, coordenado pela fonoaudióloga, doutora em lingüística, professora de português, escritora e presidente da ONG Vez da Voz Cláudia Cotes, tem como destaque a produção do Telelibras, primeiro telejornal do Brasil voltado para a comunidade surda e que é apresentado pela deficiente visual e também cantora e compositora Sara Bentes.
Para Cláudia Cotes, a realização do Telelibras surge como proposta inovadora para o futuro da inclusão na TV no Brasil. Tanto na recepção quanto na possibilidade de inclusão dos profissionais, que segundo ela, ainda não acontece como deveria.
“O jornalismo não absorveu a inclusão para si próprio. Falta capacitação nas faculdades e as emissoras precisam querer cumprir a lei, criar condições de acessibilidade na Comunicação. Falta conhecimento sobre o assunto”, alerta Cláudia.
A criação do Telelibras impulsionou a visita ao site da ONG http://www.vezdavoz.com.br/site/index.php, que subiu de 10 mil para 25 mil acessos mensais. Porém por falta de verbas pra seguir em frente, o projeto está parado. “Os projetos da Vez da Voz foram bem aceitos e premiados. Mas começaram a crescer de tal maneira, que precisavam de mais recursos. As empresas também são relutantes em investir, o que fez com que parássemos o projeto”, lamenta Cláudia. 


*matéria publicada na Revista Painel - Ciência e Cultura n º74 - produzida em 2012 por alunos do curso de jornalismo da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba).